Hixikanwe completa 20 anos a transformar dor em força coletiva

Em 2006, a fundadora da Hixikanwe viveu uma das dores mais profundas da sua vida. Perdeu familiares vítimas do HIV, entre eles a sua primeira filha, e viu de perto o sofrimento, o estigma e a discriminação que marcavam o quotidiano de muitas mulheres. Percebeu que muitas viviam a mesma dor em silêncio, sem escuta, sem orientação e sem esperança. Foi dessa necessidade humana, e não de um projecto financiado, que nasceu a associação.

O nome escolhido foi Hixikanwe, que significa Estamos Juntos. É uma mensagem de união, pertença e solidariedade para quem chega pela primeira vez. Cada mulher é recebida com um abraço e com a certeza de que não será julgada pelo diagnóstico, pela condição social ou pela sua história. Mais do que uma identidade institucional, o nome é um compromisso assumido todos os dias.

Liderar uma organização nascida e liderada por mulheres vivendo com HIV é uma grande responsabilidade e também a sua maior força. As respostas não vêm apenas dos livros ou das formações, mas daquilo que foi vivido. Por isso, o acolhimento não olha para a pessoa apenas como beneficiária de um serviço. Olha para ela como mulher, mãe, filha, com sonhos, capacidades e direitos, e para cada diagnóstico como uma história que merece respeito, confidencialidade e dignidade.

Ao longo dos anos, a associação percebeu que não é possível falar de adesão ao tratamento antirretroviral sem olhar para as condições reais de vida. Há mulheres que precisam de tomar a medicação sem ter uma refeição garantida e mães que precisam de escolher entre alimentar os filhos e cuidar de si. A Panela Solidária nasceu desta compreensão. A saúde não depende apenas dos medicamentos, mas também da alimentação, do apoio familiar e da estabilidade emocional.

Em 2025, a Hixikanwe apoiou 17.544 pessoas. Por trás do número estão mulheres que chegaram sem esperança, com medo de revelar o diagnóstico ou vítimas de violência, crianças que precisam de protecção e alimentação e idosas que continuam a lutar pela dignidade. Cada pessoa deixa uma marca na associação. Muitas vezes, um gesto simples como ouvir, oferecer uma refeição ou acompanhar a um serviço de saúde muda uma vida inteira.

O primeiro acolhimento de uma mulher vítima de violência baseada no género é um dos momentos mais delicados. Ela chega muitas vezes com medo, vergonha e sem saber quais são os seus direitos. A primeira resposta é abraçar e escutar, sem culpar, sem questionar decisões e sem pressionar a contar o que ainda não está preparada para partilhar. É por isso que a construção do GAI Comunitário é tão urgente, para garantir um espaço seguro, digno e humanizado, dentro da comunidade, com atendimento, orientação e apoio psicossocial.

Cuidar ao mesmo tempo de crianças órfãs, crianças chefes de família, crianças com necessidades especiais e meninas em situação de exploração sexual exige respostas diferentes para cada realidade. O trabalho começa pelo reconhecimento de que cada criança tem direitos. A associação actua de forma integrada, com famílias, comunidades, escolas, serviços de saúde e instituições de protecção, e conta com activistas na comunidade, prontos 24 horas por dia, que doam tempo e alimento para apoiar quem mais precisa.

A fé tem um lugar especial na história da Hixikanwe e na vida da sua fundadora. Para muitas mulheres, a oração é fonte de esperança, conforto e fortalecimento espiritual. As rodas terapêuticas completam esse caminho, ao criar espaço para partilhar experiências, ser escutada e perceber que não se está sozinha. Quando uma mulher consegue falar sem medo de ser julgada, começa a recuperar a voz e a confiança, num processo que olha para o corpo, a mente, as relações, a dignidade e a dimensão espiritual, sempre com respeito pelas crenças de cada uma.

A primeira regra da associação é simples, todas as pessoas merecem respeito e dignidade. Por isso, o espaço é aberto a trabalhadoras de sexo, mulheres trans, mulheres com deficiência e idosas, sem exclusão por identidade, profissão, condição de saúde, idade ou situação social. O ambiente seguro é construído com escuta, confidencialidade e não discriminação. Muitas destas mulheres já enfrentaram rejeição até nos serviços que deveriam protegê-las, e na Hixikanwe encontram um lugar onde podem chegar sem medo.

Hoje, a maior dificuldade é a falta de financiamento institucional e de um apoio regular para o funcionamento diário. Muitas vezes, os parceiros financiam projectos específicos, mas não cobrem necessidades permanentes, como o subsídio das activistas que cuidam de idosas acamadas, o pagamento de guardas, a remuneração das mediadoras comunitárias, a iluminação, a energia e até a água. Depois de 20 anos, a maior lição é que uma comunidade se levanta quando as pessoas deixam de ser vistas apenas como beneficiárias e passam a ser parte da solução. A mensagem para quem vive hoje o que a fundadora viveu em 2006 é clara, não desista de si mesma, procure apoio e lembre-se de que não precisa de enfrentar tudo sozinha.

Por Sérgio Botêlho Júnior

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