Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais estão desenvolvendo a Calixcoca, uma vacina experimental criada para auxiliar no tratamento da dependência de cocaína e crack.
Diferentemente de outras vacinas, ela é não proteica e tem como base a molécula V4N2 (calixareno). Ela induz o organismo a produzir anticorpos que se ligam à cocaína no sangue, o que impede sua entrada no cérebro e bloqueia seus efeitos.
A proposta não é substituir os tratamentos atuais. Segundo os pesquisadores, o objetivo é diminuir o risco de recaída e oferecer uma nova ferramenta de apoio aos tratamentos já existentes, que hoje têm resultados ainda muito limitados.
O projeto ganhou destaque internacional após apresentar resultados iniciais promissores em animais e já foi reconhecido com prêmios como o Euro Inovação em Saúde e o Veja Saúde e Oncoclínicas, ambos em 2023.
O avanço mais recente veio com a concessão da carta patente no Brasil, pelo INPI, e também nos Estados Unidos. O anúncio foi feito em evento oficial da UFMG e do Governo de Minas. Na ocasião, foram anunciados investimentos de R$ 18,8 milhões do governo do estado que vão viabilizar a fase de testes da vacina em humanos.
Coordenador do estudo, o professor e psiquiatra Frederico Garcia pede cautela. “A vacina não é uma panaceia. Ela não seria indicada indiscriminadamente para todas as pessoas com transtorno por uso de cocaína. É preciso fazer uma avaliação científica para identificar com precisão como ela funcionaria e para quem, de fato, ela seria eficaz”, alerta.
Ele explica o mecanismo: “Ela produz anticorpos anticocaína, que impedem a passagem da droga pela barreira protetora do nosso cérebro, evitando que o seu efeito seja percebido pelo animal.” Apesar dos bons resultados, a vacina ainda está em fase experimental, não foi aprovada para uso em humanos e precisa passar por mais testes em laboratórios certificados antes de avançar para a fase clínica.
Caso os estudos continuem apresentando resultados positivos, a tecnologia poderá representar um avanço histórico no combate à dependência de substâncias psicoativas, trazendo esperança para milhões de famílias que enfrentam diariamente os impactos do crack e da cocaína.
Por Sérgio Botêlho Júnior



