Matteo Ghiglione: Foi através das histórias contadas pelo Padre Renato na Itália que eu sonhei em mudar o mundo

A revista ImagineAcredite vai trazer, em sua 5ª edição, um testemunho emocionante de como a obra social da Casa do Menor São Miguel Arcanjo chegou à Itália. Neste momento, o portal vai trazer apenas uma prévia do que está por vir, tudo para nossos leitores ficarem com o gostinho de querer saber mais sobre essa obra que acolhe e oferece amor, família e dignidade para os acolhidos. E para explicar sobre a renomada Casa do Menor Itália, a ImagineAcredite entrevistou o italiano Matteo Ghiglione que é responsável pelos projetos e captação de recursos de todas as unidades da instituição. Casado com a Eleonora Olivero e pai de dois filhos, Martino e Annalucia, ele tem uma vida dedicada em ajudar ao próximo, sempre pautada pelo respeito, ética e o compromisso.

Formado pela Universidade de Turim em Ciências Políticas – com duas especialidades, Relações Internacionais e Cooperação para o Desenvolvimento –, além do Mestrado em Gestão das Empresas Sociais, em Milão, Matteo cresceu ouvindo histórias de superação contadas por seu pai sobre a instituição, fundada pelo padre Renato Chiera e Lúcia Inês, que resgata os meninos, adolescentes, jovens e adultos abandonados pela sociedade e, após o processo de recuperação, os acolhidos têm uma nova vida recheada de vitórias.

“Eu conhecia a Casa porque o padre Renato é daqui da minha região. Então, desde criança, eu me lembro que ele de vez em quando fazia as suas intervenções nas paróquias, dando testemunho do que estava fazendo no Brasil. Eu ficava sempre muito impressionado e os meus pais também com esse padre que era tão carismático, contando histórias fora do comum de um país com uma realidade tão diferente da nossa e, sobretudo, tão injusta, violenta, com esses problemas desde criança na rua até as drogas. Era e é ainda hoje um pouco, pelo menos, uma realidade muito diferente da nossa aqui. Todo mundo ficava muito impressionado do testemunho que ele estava trazendo para nós”, descreve.

E foi a partir desses encontros que Matteo começou a ter aquela vontade de viajar, conhecer o mundo e transformar a vida das pessoas que mais necessitam. “Eu me lembro que também as palavras dos padres me tocavam, era algo que eu dizia: “ah, poxa gostaria de poder trabalhar nesse tipo de realidade fora, pra ajudar quem está numa situação pior do que a minha, uma coisa assim ainda algo embrionário como forma de trabalho, de vocação”. Era algo que me tocava. Então conheci o padre assim”, pontua Matteo que sempre teve uma família estruturada, o seu pai trabalhava em um banco e sua mãe em uma empresa.

E com a vontade de mudar o mundo, sua primeira viagem foi para África, na República Democrática do Congo, onde ele se deparou com as desigualdades sociais que o deixou triste. “É um país muito grande, com grandes problemas de injustiça, porque é um país muito pobre. E o meu tio trabalhava lá com o padre missionário. Então, viajei pra lá pela primeira vez quando eu tinha 20 anos e era minha primeira viagem sozinho e me marcou muito. Porque, realmente, foi lançado de uma realidade bem diferente da minha, onde a pobreza me deu um soco na cara. Então, eu estava estudando e foi mesmo um soco que me desorientou, até que eu não sabia mais o que eu deveria fazer com esses problemas tão graves”, diz emocionado, ao revelar o sentimento de injustiça.

Ao testemunhar a triste realidade de países que sofrem com a fome, doenças, desemprego, ele ficou revoltado com tamanhas indiferenças sociais. “É um sentimento de grande injustiça. Eu saí de uma realidade onde tudo está certinho. Se eu tenho um problema eu vou para o hospital, tudo é de graça, porque é financiado pelo Estado, qualquer coisa tenho amigos, trabalho tudo certo. Enquanto o mundo é mais fora do que a minha pequena realidade. Lá fora há uma injustiça muito grande, muita gente que tem muito pouco. Isso não está certo. O meu primeiro sentimento foi de raiva pela injustiça. Mas também a curiosidade de conhecer culturas diferentes. Aí comecei a gostar muito de conhecer uma cultura diferente, uma maneira de ver o mundo, de ver Deus, ver a família, ver o dinheiro, ver as relações de uma maneira diferente. E aí aumentou a minha curiosidade de viajar”, declara, que quando chegou ao Brasil, viu que a realidade era semelhante da África.

Já em terra brasileira, o primeiro contato direto com a Casa do Menor foi em Fortaleza, quando fez uma viagem em seu último ano da minha formação acadêmica. “Era para fazer minha tese, que era sobre a Economia Solidária brasileira. Viajei para o Brasil estudando 2 realidades diferentes, uma urbana e outra rural. E a urbana era em Fortaleza, sobre o Banco Palmas, que era um banco que criou uma moeda social que circulava no bairro onde eu estava. E depois a outra era uma área de cooperativas de mulheres cooperativas de coco babaçu, no Maranhão. O Banco Palmas era em Fortaleza, eu me lembrei que em Fortaleza era presente a Casa do Menor. Então, pensei, vou juntar as 2 coisas: a minha pesquisa e a estadia na Casa do Menor, pra conhecer aquela realidade. E foi assim que eu fiquei lá um mês. Eu saía de manhã para visitar o Banco Palmas, para fazer as minhas pesquisas, e depois a tarde eu ficava jogando com as crianças”, relata Matteo, que há pouco tempo conheceu a Sede em Miguel Couto, na Baixada Fluminense, uma das mais violentas do Rio de Janeiro.

“Quando eu conheci a realidade de Miguel Couto há 3 anos, eu já tinha aquela experiência da África de 4 anos, da Guiné-Bissau, que me marcou muito. Mas que era uma realidade pobre, mas ao mesmo tempo com muita dignidade, com o sentido da família, das relações, das tradições muito forte. Enquanto em Miguel Couto uma realidade urbana. Quando o padre me levou para a Cracolândia, por exemplo, eu fiquei, assim, ter visto o pior do mundo, o pior lugar do mundo sem dignidade. Enquanto na Guiné-Bissau há pobreza, mas há dignidade. Em uma Baixada Fluminense, em uma Cracolândia, assim, o ser humano perdeu todo o sentido”, narra.

“Eu me lembro na viagem, saindo da Cracolândia, o padre fazia entrevistas com todo mundo, tentando entender qual era o sentido de cada um. Eu fiquei calado porque não há muitas palavras depois de ter visto onde pode chegar o ser humano, a destruir a própria vida e fruto da injustiça, de uma sociedade que não incluí, com muita muitas perguntas, questionamentos. Ele era o único que ainda prestava atenção a esse povo, sem pedir nada, nem conversão, só dando uma presença e dizendo: “olha, estou aqui. Se ninguém está mais, eu ainda estou”. Essa é uma mensagem muito bonita que ficou comigo, onde se percebe também essa questão de ser presença, é muito forte”, expõe.

E toda essa experiência da pobreza, da miséria, da fata de amor, de presença de família, ele garante que a sociedade, por meio do trabalho, pode mudar a realidade do próximo. “Eu acredito que, através do meu trabalho, mesmo se estou 8 horas na frente de um computador, olhando números, mas eu estou contribuindo. Pelo menos eu quero acreditar que o meu trabalho possa ter esse impacto. E isso me dá força para continuar, é acreditar no que estou fazendo. Porque sei que também junto com outras pessoas que estão, por exemplo, nas Casas Lares, na Vila Cláudia, e eu aqui, juntos com o nosso trabalho estamos tentando mudar, de ser algo diferente. Se eu estivesse aqui sentado para trabalhar num banco, estaria mudando o mundo de uma forma diferente que, na verdade, é para tornar mais ricos, os que já são ricos. Enquanto, eu estou aqui, estou tentado ajudar os mais marginalizados para ter oportunidades de mudar a própria vida”, argumenta.

Obra de amor iniciada no Brasil, chega à Itália

Na oportunidade, ele também explicou como iniciou a Casa do Menor Itália. “Aqui começou como grupo de amigos do padre Renato. Uma paróquia que dava dinheiro para ajudar o padre desenvolver o trabalho para os meninos de rua. Ele era conhecido como o padre dos meninos de rua. Começou pra organizar ajuda ao padre Renato e depois se tornou uma Associação que tem funcionários, tem voluntários. Hoje em dia trabalha também de captar recursos para as causas. Nós temos que salvar vidas, mudar o mundo. temos que fazer parcerias, captar mais recursos, sensibilizar as comunidades. Então temos um papel muito importante também aqui. É uma missão”, assegura.

“A ideia é de ser uma presença estruturada também aqui, é uma outra parte do meu trabalho. Portanto, pouco a pouco, encontrar a nossa vocação também de Casa do Menor Itália, aqui nesse território, e de ser uma presença aqui que começou no Brasil e que veio, assim, como a viagem inversa. Começou com o padre saindo da Itália, agora já voltou, e estamos começando aqui mais uma história. Um outro desafio que tenho, a realidade aqui é pequena, a Casa do Menor Itália que uma realidade pequena, mas é um dos desafios que temos”, afirma.

Matteo aproveitou o momento para elogiar o padre Renato e enaltecer a obra de amor da Casa do Menor. “É uma figura carismática, que teve uma intuição, uma força, um sonho, que lutou para mudar o mundo. Ele podia escolher ser um padre e dando muita missa, rezando, confessando muitas velhinhas, mas ele sentiu que era importante mudar a realidade onde estava como padre, como igreja”, finaliza.

Ascom Imagineacredite

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