Priscila Rocha: o que me encantou para permanecer na instituição é o amor dado para as crianças que chegam sem perspectivas e conseguem mudar de vida

A Casa do Menor São Miguel Arcanjo desenvolve um trabalho de acolhimento que é referência em todo o país, graças ao amor, esperança e presença de família que oferece aos acolhidos, sejam crianças, adolescentes, jovens e adultos. A obra social, fundada pelo padre Renato Chiera e Lúcia Inês, conta com o trabalho brilhante de voluntários e colaboradores que dão a oportunidade para cada acolhido escrever um novo capítulo em sua história. E, para isso acontecer, esses acolhidos precisam de um acompanhamento psicológico para superar cada ferida que a vida deixou. Sendo assim, a entidade conta com o empenho da psicóloga Priscila Rocha, que trabalha na Casa Herbalife há 5 anos, contado o período de estágio.

A título de conhecimento, a Casa Herbalife ensina o amor e a pedagogia presença para crianças que têm família e estão em situação de vulnerabilidade, além daquelas que são abandonadas ao nascerem e colocadas para adoção. E a ImagineAcredite traz uma matéria exclusiva explicando os desafios enfrentados e como é feito o processo de adoção. “É um trabalho muito desafiador, porque embora as crianças sejam bebês, ditos de primeira infância, elas têm demandas de adultos. Problemas que nós não passamos, essas crianças muitas das vezes já passaram. Então, mesmo com tão pouco tempo de vida, essas crianças trazem muitas vivências que prejudicam o seu desenvolvimento”, esclarece.

Segundo a psicóloga, quando essas crianças chegam à instituição é feita uma avaliação de todas as demandas e, posteriormente, o acolhimento mais humano possível para que essas crianças possam se desenvolver plenamente. “O acolhimento não é só das crianças. Essas crianças têm famílias, ao contrário das crianças maiores, muitos ainda tem vínculos que ainda não foram totalmente rompidos. Então, é trabalhado com essa família, um projeto de construção familiar, pra que possa ser feito uma possível reflexão, uma mudança nos atos, pra que eles possam ter essas crianças reintegradas. Ou então, é feito a destituição do poder familiar pra que essas crianças possam ir para uma nova colocação em uma família substituta”, relata.

Para Priscila, todos os processos são desafiadores, visto que as crianças passam por todas as etapas emocionais, incluindo os abalos que envolvem tanto o afastamento do núcleo familiar, quanto a aproximação de um novo núcleo familiar. “Muitas das vezes foram concebidas através de pais que são usuários de drogas, que não fizeram o devido pré-natal. Então elas trazem marcas na infância mesmo. É um trabalho desafiador, mas também muito gratificante. Porque a cada sorriso, a cada passo, a cada conquista, a cada dia a dia que eles vão se desenvolvendo um pouquinho, coisas que para as crianças muitas das vezes são coisas simples, mas que pra eles é uma alegria enorme. Então, a gente acompanha tudo isso”, argumenta.

E cada evolução é comemorada por toda a equipe, formada por cuidadoras, técnicas, coordenação, voluntários, que abraça a causa para ser família a essas crianças. E a pedagogia da casa faz a diferença. “É uma proposta que traz essa questão da presença, do amor. E as crianças percebem essa diferença, quando vão se desenvolvendo e quando chegam aqui na casa. Aqui, na Casa do Menor, recebem um tratamento diferente do que elas estavam acostumadas a receber quando não estavam acolhidas”, assegura a psicóloga, ao dizer que o maio problema que essas crianças enfrentam é a negligência.

“Essas famílias reproduzem coisas que já viveram. Então, por serem famílias com uma vulnerabilidade social muito grande, geralmente, isso reflete na criação dos filhos. Os problemas maiores são problemas geralmente com o fundo social. Então é um trabalho que tem que ser feito com toda a rede de fato, de prevenção, os CRAS, pra que essas famílias não venham chegar a esse ponto, porque o acolhimento institucional é em última instância, é em último caso. É quando já foram feitas todas as possibilidades com essa família. Mas geralmente só chegam a vir pra cá quando essas famílias já foram muito negligenciadas dos seus próprios direitos lá fora em outras situações”, reitera Priscila Rocha ao contar um caso emocionante que aconteceu no processo de adoção.

“Recente, nós tivemos um caso que foi de um grupo de três irmãos que me marcou muito. Foi um caso de uma colocação em uma família substituta. Eles já foram destituídos da mãe que tinha muitas dificuldades pra criar. Numa primeira tentativa de colocação, a família desistiu de ficar com eles com menos de uma semana. Foi muito doloroso pra todos nós e pra eles. E fazer um trabalho psicológico de desconstrução de todo aquele vínculo que eles tinham feito e recebido aquela família de braços abertos e depois desconstruir tudo isso pra poder aceitarem uma outra família, eles tinham muita dificuldade psicológica, foi um trabalho muito pesado pra toda equipe. Então todos nós ficamos muito sentidos. Eles foram devolvidos um dia antes do Dia das Pais e isso foi muito marcante. Nós os tiramos daqui pra não sentirem tanto as outras crianças com visita de pais. E eles que tinham amado os pais, recebido os pais, não iam ter mais os pais aqui”, descreve.

E um outro caso atual que está comovendo a equipe é a colocação em família substituta de uma criança especial, onde foram consultadas 150 famílias para a Samile, que está na instituição desde recém-nascida. “Um casal, que era voluntário aqui da Casa, resolveu ter essa missão de ser pai e mãe da Samile. Então, a gente tá acompanhando o processo, tá sendo um processo muito lindo, marcante, emocionante, que também envolve muita técnica pra que isso venha dar certo. Todos os acompanhamentos, todas as etapas, todos os processos, toda a construção desse vínculo, pra que eles venham ter segurança pra cuidar dela, de uma maneira que ela possa, de fato, se desenvolver”, diz emocionada.

E a contribuição da psicóloga começou ainda na época do estágio, quando estava fazendo o Trabalho de Conclusão do Curso sobre a Casa do Menor. “A minha pesquisa foi criticada na faculdade, porque de maneira científica não se explicava o trabalho da Casa do Menor. Mas eu avaliei que a experiência trabalha o desenvolvimento, porque a Psicologia Social trabalha o protagonismo. Aqui na Casa tudo isso era feito, mas de uma maneira diferente. E até pra que explicar isso cientificamente, foi um desafio”, lembra.

E o que a encantou para permanecer na instituição é o amor dado para as crianças que chegam sem perspectivas e conseguem mudar de vida. “Eu falo que as crianças aqui são geradas nos corações. A pedagogia fala dos filhos não amados, mas são filhos que são amados e gerados primeiro no coração de todo mundo que trabalha aqui. Eu me lembro que isso me marcou quando a minha antiga psicóloga, que era supervisora na época, Ivana, me explicava um pouco sobre como era o trabalho e eu via a possibilidade de unir a teoria na prática, com técnica, com amor e também essa parte espiritual. Então, para mim, me marcou e foi o que me fez de fato me envolver com esse trabalho e está aqui trabalhando até hoje”, justifica.

Questionada sobre o que representa a instituição, ela afirma que é um trabalho social que faz a diferença na vida dos acolhidos. “A Casa do Menor é uma grande casa que de fato acolhe muitas crianças, muitos adultos, muitos filhos. Então, esse trabalho, esse título casa do menor, embora o termo menor passou por várias questões, hoje o termo menor não é muito bem visto, mas o termo casa simboliza de fato todo esse trabalho que a casa proporciona”, finaliza.

Ascom ImagineAcredite

você também pode gostar...