Myrinha Vasconcellos se apresenta como fruto de um milagre. Nascida no Dia de Todos os Santos depois de os médicos dizerem à mãe que ela não poderia ter filhos, aprendeu em casa que “tudo é possível ao que crê”. Essa frase virou bússola: dos 30 anos como gestora no BNH e na Caixa, no Rio de Janeiro, às 12 viagens à Disney trabalhando com turismo, até chegar a Brasília em 2014 para comandar a área de Relacionamento da previdência dos empregados da CAIXA, terceiro maior fundo de pensão do país.
Na Funcef, criou e validou o método “O Poder do Encantamento”. O objetivo era transformar o atendimento em relacionamento de excelência – e o resultado apareceu: a área de Atendimento bateu mais de 98% na pesquisa de satisfação, enquanto a Coordenação de Empréstimos alcançou a segunda maior rentabilidade financeira da fundação. “Não era só atender, era encantar e fidelizar”, resume. No mesmo período buscou quatro certificações internacionais Efeito Magic e do Jeito Disney de Encantar o Cliente e transformou a gestão em case, hoje apresentado em palestras nos Estados Unidos, Dubai, Portugal, Espanha, Argentina e Uruguai.
A música atravessa a trajetória e leva para o palco.. Pianista desde a infância — o pai cantava Tea For Two para “ninar o neném” que estava sendo gerado na barriga da mãe – . “Com música a vida é mais feliz. Encantamento também é melodia”, diz. No livro Mulheres em Combate ao Wollying, do Instituto Quais de Mim Você Procura, assinou o posfácio depois de ler as 55 histórias de coautoras. “Chorei muito. Transformei a dor numa mensagem de amor.”
Wollying, explica, é o assédio sutil entre mulheres que muita gente normaliza: comentários como “ela só cresceu porque é amiga do chefe”. Para Myrinha, o combate começa na liderança. “Respeito é construção diária. Imposição gera medo e bloqueia o sucesso; respeito gera admiração.” E deixa a frase que gostaria de ver em toda empresa: “Empoderar mulheres é multiplicar o sucesso da empresa.”
Em março de 2026 esteve na CSW70 da ONU, em Nova York, traduzindo os debates nas lives diárias. O que mais a marcou foi Naiá Tupinambá, indígena de 22 anos que, de cocar azul e inglês impecável, cobrou medidas contra a violência que atinge meninas e mulheres indígenas. “Isso precisa virar política pública urgente, sem demora”, defende. No mesmo mês, indignada com um feminicídio em Vitória (ES), gravou vídeo nas redes.“ Jurar amor não pode se transformar em ódio , a ´ponto de ceifar uma vida. É necessário mais diálogo.”
Myrinha quer ver a palavra wollying nos livros de história em menos de cinco anos. “Violência contra mulher, meninas e indígenas não se tolera. Se pune e se educa.” Entre a pianista e a palestrante, ela não escolhe: “A Myrinha pianista é imprescindível para a Myrinha palestrante. Sem música, a vida seria um erro.”
Por Sérgio Botêlho Júnior






