Da “casinha” no quintal em Cabedelo às academias de letras: a trajetória da educadora-poeta Nadja dos Santos Araújo

Professora premiada nacionalmente, mestranda em Políticas Educacionais pela UFPB e autora do livro Pequenos Espaços (2024), Nadja dos Santos Araújo construiu uma carreira que une Direito, Pedagogia e poesia em defesa da Educação Infantil em Cabedelo, no Litoral da Paraíba. Em 2025, tomou posse nas cadeiras 32 da Academia Metropolitana de Ciências, Letras e Artes de Cabedelo (AMCLAC) e 05 da Academia de Escritores do Litoral Paraibano (AECIJAL), coroando uma trajetória que começou na rede municipal onde hoje forma professores.

Nascida em Cabedelo em 1975, filha de um funcionário público e de uma dona de casa, Nadja descreve a cidade como “porto seguro”. Foi no quintal com bananeiras e coqueiros que viveu uma das brincadeiras mais marcantes da infância: a “casinha”. Com panelinhas de barro e folhas de bananeira, “cozinhava” beiju, tapioca e ensopadinhos para as bonecas — um jogo simbólico que, hoje, reconhece como parte fundamental do desenvolvimento infantil.

A escrita entrou cedo, ainda no ginásio, influenciada pelo professor de História e pelas leituras sobre a ditadura militar — Os Carbonários, de Alfredo Sirkis, e Brasil: Nunca Mais, de Dom Paulo Evaristo Arns. Desse contato nasceu a série Uma Nova Forma de Filosofar, coletânea de reflexões breves. “Se o amanhã nos revelasse seus caminhos, sonhos e planos perderiam o sentido. É na incerteza que depositamos nossas maiores expectativas”, escreveu.

Cursou Direito e Pedagogia ao mesmo tempo. O Direito veio pelo desejo do pai e pelo interesse no Direito da Infância e Adolescência; a Pedagogia, por já ser professora da rede municipal e precisar da graduação para avançar no plano de carreira. Depois de formada, chegou a atuar como procuradora do município por cinco anos. “Essas duas experiências dialogam diretamente. Me permitiram entender as garantias de direitos e a importância das políticas públicas para a infância”, afirma.

O reconhecimento nacional veio em 2003, quando venceu o Prêmio Professores do Brasil (1º lugar) com o projeto “Como funciona o coração?”. A ideia nasceu de uma pergunta em sala de aula: uma aluna colocou a mão na perna ao tentar indicar onde ficava o coração. No ano seguinte, recebeu menção honrosa com “Resgatando as brincadeiras esquecidas através das poesias de Cecília Meireles”, usando a obra Ou Isto ou Aquilo para reconectar as crianças ao universo do brincar.

Os prêmios tiraram Nadja da sala de aula e a levaram para a Secretaria de Educação, onde hoje atua na Coordenação de Educação Infantil como formadora de professores. “Foi a ampliação do meu olhar profissional”, resume.

Atualmente, faz mestrado em Políticas Educacionais na UFPB pesquisando o lugar da Educação Infantil no Plano Municipal da Primeira Infância de Cabedelo — como as metas e diretrizes se traduzem (ou não) no cotidiano das creches e pré-escolas. Também é articuladora municipal do Selo UNICEF, mobilizando educação, saúde e assistência social. Para ela, o maior desafio é fazer a intersetorialidade acontecer de fato. “Exige diálogo constante e superação de práticas fragmentadas.”

Paralelo à gestão e à pesquisa, mantém a escrita. Em 2024 lançou Pequenos Espaços, livro de haicais, microcontos, poemas e reflexões. O título, explica, vem da ideia de que “são nos instantes mais simples e invisíveis do cotidiano que a vida se revela em sua maior profundidade”. Publica literatura minimalista nas redes sociais e não vê separação entre seus dois ofícios. “A poeta amplia o olhar da educadora. A educação dá propósito social à minha escrita.”

A posse nas academias literárias em 2025 foi, para ela, “um ato de pertencimento”. “Cada cadeira carrega uma responsabilidade com a continuidade da memória cultural.”

Depois de mais de duas décadas na educação, o que ainda a inquieta é a distância entre o que as políticas preveem e o que chega às crianças, além da valorização dos profissionais da Educação Infantil. O próximo sonho une as duas pontas da carreira: concluir o mestrado e lançar novos livros. “Meu propósito é contribuir, de forma sensível e comprometida, para uma sociedade onde cada criança tenha seus direitos garantidos. Ser professora de Educação Infantil é um compromisso com o cuidado e com a construção de memórias que acompanham a criança por toda a vida.”

você também pode gostar...