O perigo de acreditar na própria ilusão

Existe um tipo de mentira que não dói quando é contada. Ela conforta. É a ilusão que nós mesmos criamos para que a vida caiba na história que queremos contar sobre quem somos. No começo ela funciona como um abrigo, nos protege do frio da frustração e nos dá tempo para respirar.

A gente não cria ilusões por fraqueza, mas por necessidade de coerência. Quando a realidade não combina com a imagem que temos de nós, o cérebro prefere reescrever a realidade. Assim nasce a ideia de que aquele relacionamento vai mudar, de que aquele projeto só precisa de mais um pouco de esforço, de que estamos bem quando na verdade estamos exaustos.

O perigo começa quando essa história precisa ser defendida o tempo todo. Passamos a selecionar apenas o que confirma o que queremos acreditar e a descartar qualquer sinal contrário como azar, inveja ou falta de fé dos outros. A curiosidade some e entra a teimosia. Sem perceber, trocamos aprendizado por autodefesa.

E o preço dessa defesa nunca vem sozinho. Ele aparece nas conversas que evitamos, nas oportunidades que deixamos passar porque juramos que não precisávamos mudar de rota, na energia que gastamos para manter de pé algo que já ruiu por dentro. A ilusão cobra juros emocionais e quem está ao nosso redor também paga a conta.

Foi importante para mim entender a diferença entre imaginar e me iludir. Imaginar me leva para a realidade. Me faz perguntar e se, testar, errar, ajustar. Iludir me afasta dela. Me faz dizer já é, me esconder, adiar o teste para não correr o risco de descobrir que me enganei. Uma atitude abre caminho, a outra fecha.

Comecei a me libertar quando troquei a pergunta será que estou certo por o que eu precisaria ver para perceber que estou errado. Se a resposta for nada, não estou diante de uma crença, estou dentro de uma prisão. Também aprendi a ouvir o corpo, que não negocia. Onde há tensão que não passa, sono que não descansa e alegria que não volta, há uma verdade pedindo passagem.

No fim, abandonar uma ilusão não é perder a fé, é trocar uma fé infantil por uma fé madura. É entender que a realidade, mesmo dura, é mais generosa que a fantasia porque só ela pode ser transformada. A honestidade corajosa dói por alguns minutos e liberta por anos. E é ali, fora do abrigo que virou cela, que a vida finalmente volta a se mover.

Por Sérgio Botêlho Júnior

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