A tragédia silenciosa do analfabetismo no Maranhão e a urgência de um pacto republicano pela alfabetização
Por Waldir Maranhão | Ex-deputado federal
Há tragédias que se anunciam com sirenes, luto público e comoção imediata. Outras atravessam gerações em silêncio, disfarçadas de normalidade, alojadas nas estatísticas, aceitas como se fossem destino. O analfabetismo no Maranhão pertence a essa segunda categoria: não explode em praça pública, mas corrói por dentro a cidadania, a economia, a democracia e a própria noção de futuro.
A pergunta que precisa constranger a política maranhense é simples e brutal: como transformar nossas sociedades sem educar o soberano? Em uma democracia, o povo é o soberano. Mas que soberania real possui quem foi impedido de ler plenamente o mundo, de interpretar um documento, de compreender uma proposta de governo, de reconhecer uma mentira travestida de notícia ou de defender seus próprios direitos diante da burocracia do Estado?
O analfabetismo não é apenas a ausência de letras. É a presença persistente da desigualdade. É uma cerca invisível erguida entre o cidadão e a liberdade. É a negação prática do direito de participar da vida pública em condições mínimas de autonomia. Quem não lê depende de terceiros para decifrar contratos, remédios, mensagens, editais, benefícios sociais, orientações de saúde, boletos, leis, notícias e promessas eleitorais. Essa dependência fragiliza o cidadão e fortalece intermediários.
A estatística que deveria envergonhar a República
Os números recentes não permitem complacência. Em 2024, a taxa de analfabetismo no Maranhão chegou a 11,3% da população de 15 anos ou mais. Isso significava aproximadamente 619,3 mil jovens e adultos que não sabiam ler e escrever no estado. No mesmo período, a taxa maranhense estava cerca de 6,3 pontos percentuais acima do restante do país, segundo o painel Amazônia Legal em Dados, com base na PNAD Contínua.
No Brasil, houve avanço: em 2025, a taxa nacional caiu para 4,9%, a primeira vez abaixo de 5% na série recente. Mas o próprio IBGE informou que ainda existiam 8,4 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais. Mais da metade desse contingente estava no Nordeste. Ou seja, a queda estatística não autoriza celebração vazia. Ela exige acelerar a correção de uma dívida histórica.
O Plano Nacional de Educação foi claro ao estabelecer a Meta 9: elevar a alfabetização da população de 15 anos ou mais, erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir o analfabetismo funcional. O prazo passou, e o país não cumpriu plenamente aquilo que prometeu a si mesmo. Quando a República descumpre uma meta dessa natureza, não falha apenas tecnicamente; falha moralmente.
Analfabetismo é também uma questão de poder
Durante muito tempo, o povo foi chamado às urnas com mais eficiência do que foi chamado à escola. Foi convocado para legitimar governos, mas nem sempre recebeu do Estado as condições para se libertar da dependência política. Essa contradição precisa ser dita sem medo: uma sociedade que aceita conviver com analfabetismo em massa aceita também uma forma sofisticada de exclusão democrática.
Onde a leitura não chega, a manipulação entra com facilidade. Onde a escola falha, o favor ocupa o lugar do direito. Onde falta cidadania educada, o clientelismo encontra terreno fértil. Um povo alfabetizado pergunta, compara, fiscaliza, exige orçamento, cobra resultado e não se contenta com espetáculo. Um povo alfabetizado entende que política pública não é generosidade de governante, mas obrigação do Estado.
Por isso, alfabetizar não é uma pauta técnica reservada a secretarias. Alfabetizar é uma decisão política central. É democratizar o poder. É retirar o cidadão da condição de dependência e colocá-lo na condição de sujeito. É permitir que a pessoa deixe de apenas ouvir a história contada pelos outros e passe a escrever a própria história.
A ferida maranhense é antiga, mas não é destino
O Maranhão carrega marcas profundas de desigualdade social, concentração de renda, ruralidade desassistida, pobreza persistente e abandono histórico de comunidades inteiras. O analfabetismo é uma das expressões mais duras desse processo. Ele atinge idosos que trabalharam a vida inteira, mulheres que sustentaram famílias, trabalhadores rurais, periferias urbanas, povos tradicionais, pessoas com deficiência e populações que sempre receberam do Estado menos do que lhes era devido.
É preciso ter cuidado para não confundir analfabetismo com incapacidade. Falta letra, não inteligência. Falta oportunidade, não dignidade. Muitos maranhenses que não tiveram acesso à escola dominam saberes da terra, da pesca, da cultura, da fé, da sobrevivência, da família e do trabalho. A tragédia não está neles. A tragédia está em um poder público que demorou demais para garantir o óbvio: ninguém deve atravessar a vida sem o direito de ler e escrever.
A alfabetização de adultos, portanto, não pode infantilizar o adulto. Deve reconhecer sua história, sua jornada e sua força. A Educação de Jovens, Adultos e Idosos precisa ser redesenhada com respeito: horários compatíveis com o trabalho, transporte, alimentação, material adequado, busca ativa, professores valorizados, metodologia própria, acolhimento e ligação com qualificação profissional.
Crianças alfabetizadas: avanço, mas não salvo-conduto
Também é necessário olhar para a infância. O Maranhão registrou avanço recente no Indicador Criança Alfabetizada, alcançando 69% e superando a meta estadual e a média nacional divulgadas para o período. Esse resultado deve ser reconhecido como sinal positivo. Mas ele não pode servir de anestesia. Se 69% representa avanço, também revela que ainda há uma parcela expressiva de crianças que precisa ser alcançada com urgência.
Criança que conclui os anos iniciais sem ler adequadamente não está apenas atrasada na escola; está sendo empurrada para uma sequência de fracassos previsíveis. A alfabetização na idade certa é o primeiro degrau da aprendizagem. Sem ela, matemática vira enigma, ciências vira decoreba, história vira ruído, tecnologia vira barreira, cidadania vira palavra distante.
O combate ao analfabetismo exige duas frentes simultâneas: impedir que novas gerações cheguem à adolescência sem domínio da leitura e resgatar jovens, adultos e idosos que foram deixados para trás. Uma política que escolhe apenas uma dessas frentes será sempre incompleta.
Educação como centro de um novo pacto maranhense
O Maranhão precisa tratar a alfabetização como emergência republicana. Isso significa organizar um grande pacto entre Estado, municípios, União, universidades, igrejas, movimentos sociais, sindicatos, escolas, empresas, sistema de justiça, imprensa e comunidades. A alfabetização não pode ser programa de governo com prazo eleitoral; precisa ser compromisso de Estado com horizonte geracional.
Esse pacto deve ter metas públicas, indicadores transparentes e cobrança permanente. Cada município deve saber quantos jovens e adultos não alfabetizados existem em seu território. Cada escola deve ser centro ativo de busca. Cada comunidade deve ter uma estratégia. Cada gestor deve prestar contas. Cada orçamento deve revelar prioridade. O dinheiro público precisa chegar à sala de aula, ao professor, ao material, à formação, ao transporte e à permanência do estudante.
Não basta abrir matrícula. É preciso garantir permanência. Não basta inaugurar programa. É preciso medir aprendizagem. Não basta anunciar números. É preciso transformar vidas. A política educacional deve sair do gabinete e entrar nas casas, nos povoados, nos bairros, nos quilombos, nas aldeias, nas periferias, nas zonas rurais e nas comunidades ribeirinhas.
O povo não quer tutela; quer instrumentos de liberdade
O povo maranhense não precisa de piedade. Precisa de direitos. Não precisa de tutela. Precisa de instrumentos. Não precisa ser tratado como massa de manobra. Precisa ser reconhecido como soberano. E soberano sem educação é soberano apenas no discurso. A verdadeira soberania popular nasce quando cada cidadão tem condições de compreender, decidir, questionar e construir.
A alfabetização é a primeira tecnologia da democracia. Antes do computador, antes da inteligência artificial, antes da economia digital, antes dos discursos sobre inovação, há uma condição elementar: saber ler. Quem ignora isso está construindo futuro sobre areia. Não haverá Maranhão desenvolvido com centenas de milhares de pessoas excluídas da palavra escrita.
Por isso, a tragédia do analfabetismo precisa sair do rodapé dos relatórios e ocupar o centro do debate público. Ela deve ser tema de palanque, de orçamento, de reunião de prefeitos, de assembleias legislativas, de câmaras municipais, de universidades, de conselhos de educação e de famílias. O silêncio é cúmplice da repetição.
A revolução começa pela palavra
O Maranhão tem cultura, juventude, território, biodiversidade, inteligência popular, vocação produtiva e força comunitária. Mas nenhuma riqueza se realiza plenamente quando parte do povo permanece excluída do domínio da leitura. Educar o soberano é libertar o Maranhão de um atraso que não é natural, mas produzido. É romper com a ideia de que pobreza e baixa escolaridade são paisagem inevitável.
Se queremos uma sociedade mais justa, precisamos educar o povo. Se queremos desenvolvimento econômico, precisamos educar o povo. Se queremos democracia forte, precisamos educar o povo. Se queremos vencer a pobreza, precisamos educar o povo. Se queremos acabar com a manipulação, o clientelismo e a dependência, precisamos educar o povo.
A pergunta inicial, portanto, tem resposta: não se transformam sociedades sem educar o soberano. Pode-se administrar a pobreza, distribuir favores, produzir propaganda e simular modernidade. Mas transformar de verdade exige alfabetizar, formar, emancipar e confiar no povo.
Um povo que lê não apenas decifra letras. Decifra promessas. Decifra mentiras. Decifra contratos. Decifra o poder. E quando o povo aprende a ler o mundo, nenhum projeto de dominação permanece confortável por muito tempo.
Educar o soberano é a primeira revolução. O Maranhão não pode esperar outra geração para começá-la de verdade.
Fontes de apoio consultadas para os dados citados
• IBGE, Agência de Notícias: PNAD Contínua Educação 2025 — taxa nacional de analfabetismo de 4,9% e 8,4 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais.
• IBGE, Agência de Notícias: PNAD Contínua Educação 2024 — 9,1 milhões de pessoas analfabetas no Brasil e taxa nacional de 5,3%.
• Amazônia Legal em Dados: indicador “Taxa de analfabetismo no Maranhão”, com base na PNAD Contínua — 11,3% em 2024 e cerca de 619,3 mil jovens e adultos analfabetos.
• IBGE, Censo Demográfico 2022: alfabetização e desigualdades por região, idade, cor ou raça e porte dos municípios.
• Lei nº 13.005/2014, Plano Nacional de Educação, Meta 9 — erradicação do analfabetismo absoluto e redução do analfabetismo funcional.
• Secretaria de Estado da Educação do Maranhão: Indicador Criança Alfabetizada, resultado divulgado em 2026, com 69% para o Maranhão.



