A discussão sobre bullying, violência contra a mulher e proteção de crianças e adolescentes tem ganhado espaço nas escolas, universidades e no poder público. Na Paraíba, parte desse debate tem sido impulsionada pelo trabalho da escritora, pesquisadora e educadora Tania Castelliano, autora de projetos voltados à prevenção da violência e à promoção da cultura de paz. Com formação nas áreas de educação, linguística, fonoaudiologia e direito, ela transformou experiências pessoais em iniciativas que hoje alcançam instituições de ensino, famílias e gestores públicos.
A história de Tania, no entanto, começou muito antes dos livros, das pesquisas e das leis que ajudou a construir. Ainda criança, ela enfrentou situações que hoje são reconhecidas como bullying, mas que, à época, eram frequentemente tratadas como simples brincadeiras. Foi nesse contexto que encontrou na escrita uma forma de lidar com o sofrimento e expressar sentimentos que não conseguia verbalizar.
“Percebi isso muito cedo. Ainda criança, vivi situações que hoje reconhecemos como bullying, mas que na época eram tratadas apenas como brincadeiras. Escrever se tornou minha forma de transformar dor em voz”, relata.
Com o passar dos anos, a experiência pessoal deu lugar à pesquisa e à atuação social. A vivência que marcou sua infância serviu de base para a criação de projetos voltados à prevenção da violência nas escolas, culminando no Selo Escola Sem Bullying, iniciativa que posteriormente foi transformada em lei no município de Cabedelo.
Segundo a autora, o objetivo sempre foi impedir que outras crianças enfrentassem situações semelhantes sem apoio. “A dor me ensinou que nenhuma criança deveria enfrentar sozinha aquilo que enfrentei. O objetivo sempre foi criar ambientes seguros, promovendo prevenção, conscientização e cultura de paz”, afirma.
A partir desse trabalho, Tania ampliou sua atuação para outras áreas ligadas aos direitos humanos, especialmente a defesa das mulheres e o combate à violência contra crianças e adolescentes. Hoje, sua produção acadêmica e literária está diretamente ligada à construção de redes de proteção, à conscientização da sociedade e ao fortalecimento de políticas públicas voltadas aos grupos mais vulneráveis.
Literatura, educação e cidadania
Ao longo da carreira, Tania reuniu diferentes áreas do conhecimento para desenvolver seus projetos. A comunicação, a linguagem, a educação e o direito passaram a caminhar juntas em sua atuação profissional.
“Todas essas áreas se complementam. A fonoaudiologia me ensinou a importância da comunicação. A linguística me ajudou a compreender o poder das palavras. O direito trouxe a defesa da cidadania e das políticas públicas. A educação me mostrou que a transformação acontece quando o conhecimento chega às pessoas”, explica.
Essa integração também aparece nas academias literárias que fundou na Paraíba. Atualmente, ela está à frente de instituições voltadas à valorização da cultura, da produção científica e da literatura.
Segundo Tania, o trabalho desenvolvido nesses espaços busca ampliar o acesso à leitura e incentivar novas vozes. “Elas servem para democratizar a cultura, incentivar a leitura, revelar novos escritores e preservar a memória de mulheres, jovens e personalidades que contribuíram para a sociedade.”
A escritora acredita que a literatura possui papel importante na formação cidadã e na construção de uma sociedade mais consciente. Para ela, livros podem ser instrumentos de reflexão e transformação social.
Essa visão também está presente em suas obras voltadas ao público infantil, que abordam temas como empatia, convivência e respeito às diferenças.
Prevenção da violência começa pela informação
Entre os temas que mais mobilizam a pesquisadora está o enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes. Para ela, a informação continua sendo uma das principais ferramentas de proteção.
“O silêncio protege o agressor. A informação protege a vítima”, afirma.
Segundo Tania, muitas situações de violência permanecem ocultas porque vítimas e familiares não sabem identificar os sinais ou desconhecem os canais de denúncia e acolhimento.
Essa preocupação levou à criação do método SARE — Silêncio, Alerta, Resistência e Acolhimento — voltado ao enfrentamento do abuso infantil.
De acordo com a autora, o primeiro passo é compreender que muitas vítimas sofrem em silêncio. Em seguida, é necessário capacitar famílias, escolas e comunidades para reconhecer sinais de violência e agir rapidamente.
Para ela, denunciar, interromper ciclos de abuso e garantir acolhimento adequado são etapas fundamentais para que crianças e adolescentes possam reconstruir a confiança e seguir suas vidas com segurança.
A defesa das mulheres além das estatísticas
A atuação de Tania na defesa das mulheres ganhou uma dimensão ainda mais pessoal após ela sobreviver a uma tentativa de feminicídio. A experiência alterou sua forma de enxergar as políticas de proteção e o acolhimento às vítimas.
“Eu deixei de falar apenas como pesquisadora ou educadora e passei a falar também como sobrevivente. Compreendi que acolhimento, escuta e políticas públicas salvam vidas”, relata.
A partir dessa vivência, ela passou a defender que o combate à violência contra a mulher deve começar antes das agressões físicas.
“Muitas vezes as instituições ainda focam apenas na violência física. Porém, antes do tapa, geralmente existe o controle, a manipulação, a humilhação, a ameaça, o isolamento e a violência psicológica”, explica.
Segundo a pesquisadora, identificar esses sinais precocemente pode evitar que situações de violência avancem para episódios mais graves.
Ela defende que a sociedade, os órgãos públicos e as redes de apoio estejam atentos às formas de violência que muitas vezes passam despercebidas, mas produzem impactos profundos na vida das vítimas.
Transformar sofrimento em proteção
Nos últimos anos, Tania também passou a estudar formas de violência que ocorrem em ambientes profissionais, sociais e digitais. Entre elas está o conceito que denominou de Wollying.
“WOLLYING é um conceito que proponho para descrever situações em que uma mulher é sistematicamente perseguida, desqualificada, humilhada ou sabotada por outra mulher”, explica.
Segundo ela, o fenômeno vai além de conflitos ocasionais e se caracteriza pela repetição de comportamentos que causam desgaste emocional e prejuízos à autoestima e à reputação da vítima.
Apesar da diversidade de temas que aborda, Tania afirma que existe um ponto comum em todos os seus projetos: a proteção das pessoas que enfrentam situações de vulnerabilidade.
Essa missão, segundo ela, nasceu das próprias experiências de vida e continua guiando sua atuação profissional.
“Toda política pública que hoje defendo nasceu de uma dor que vivi. Transformar sofrimento em proteção é a forma que encontrei de garantir que outras pessoas não precisem caminhar sozinhas pelas mesmas sombras que enfrentei”, afirma.
Ao unir educação, literatura, pesquisa e defesa dos direitos humanos, Tania Castelliano segue construindo uma trajetória voltada à conscientização, ao acolhimento e à prevenção da violência. Para ela, as palavras continuam sendo uma ferramenta capaz de abrir caminhos onde antes existiam silêncios.



