Jurista, perita e escritora, Antônia Claudino de Andrade construiu uma trajetória que não se acomoda a versões confortáveis da realidade. Da Enfermagem à Perícia Criminal, da Câmara de Vereadores à literatura e ao Direito, sua caminhada é marcada por um olhar crítico e profundamente sensível às estruturas sociais.
Nascida em Uiraúna, no sertão paraibano, transita entre laudos técnicos, pensamento jurídico e escrita literária com a mesma convicção: “há silêncios que sustentam estruturas — e eu nunca fui feita para sustentar o que precisa ser questionado”.
Hoje, aos 47 anos, é a primeira mulher a ser eternizada em vida no acervo do Museu de Arte Jurandir Maciel — um espaço que reúne nomes que ajudaram a construir a memória cultural e política do país, como Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Barão do Rio Branco e Floriano Peixoto, entre outras figuras consagradas.
Seu olhar para a justiça foi moldado cedo. “No sertão, a desigualdade não é conceito — é vivência. A ausência do Estado não é teoria — é rotina.”
Foi na Enfermagem, nos anos 1990, que aprendeu que “o corpo confessa antes da palavra” — e que, muitas vezes, o silêncio revela mais do que qualquer depoimento.
O Direito trouxe estrutura, mas também inquietação. “A justiça, muitas vezes, não falha por falta de lei — mas por falta de sensibilidade.” Foi esse incômodo que a conduziu à perícia: “Há momentos em que sentir não basta — é preciso provar.”
Na prática, equilibra dois mundos. No laudo, a linguagem é precisa, contida, quase cirúrgica. Na literatura, é liberdade.
“É na escrita que devolvo à palavra aquilo que o laudo me obriga a retirar: o excesso, o incômodo, a verdade não domesticada.”
Para ela, não há conflito entre essas dimensões — há equilíbrio.
“A perita me impede de ser irresponsável. A escritora me impede de ser insensível. E é esse equilíbrio que me mantém inteira.”
Na vida pública, como vereadora e secretária de Saúde e Articulação Política, aprendeu que governar é lidar com limites.
“O verdadeiro conflito é entre o ideal e o possível. Governar é administrar imperfeições — e o desafio não é sair ileso, é não se perder.”
Defende que, no interior, gestão responsável é consciência em ação.
“É administrar a escassez sem perder a lucidez. Cada decisão carrega uma renúncia. Isso tem nome, tem rosto, tem urgência.”
Na saúde, por exemplo, a escolha é concreta: ampliar um atendimento ou manter outro funcionando com dignidade.
“Gestão responsável não é fazer o ideal. É fazer o possível com responsabilidade moral.”
Autora de Paternidade Socioafetiva, Maria da Penha e Crime Cibernético, critica a lentidão do Direito diante das transformações sociais.
“O vínculo biológico ainda é tratado como central, quando o que sustenta uma família é o afeto, a convivência e a responsabilidade.”
Sobre a violência digital, é direta:
“O maior erro é tratar violência doméstica e digital como fenômenos separados. Não são. A violência que antes estava restrita ao espaço físico hoje se amplia no ambiente digital — permanente, replicável, amplificada.”
Na literatura, recusa rótulos.
“A vida não cabe em categorias.”
Em A Divina Hipocrisia, expõe uma sociedade que se organiza mais pela conveniência do que pela verdade.
“A hipocrisia é funcional. O problema é quando ela passa a substituir completamente a verdade.”
Já Pulsações (2025) mergulha no que antecede qualquer definição.
“Não é o corpo que conduz a obra — é o que pulsa dentro dele.”
Ser a primeira mulher eternizada em vida naquele acervo não é, para ela, vaidade — é ruptura.
“É romper uma lógica silenciosa sobre quem pode ser lembrado, quem pode ocupar o espaço da memória.”
E amplia:
“Diz respeito a todas as mulheres que foram ensinadas a ocupar espaços menores. A escultura diz o contrário: você pode ocupar o centro, pode ser memória, pode permanecer.”
Não é vaidade. É símbolo.
E, como ela mesma afirma, símbolos mudam histórias.
Quando perguntada que palavra define sua trajetória, responde sem hesitar:
“Consciência.”
Por Sérgio Botêlho Júnior





